Morro
da Favela (atual Providência), em 1927. Após a Lei Áurea, os negros
libertos foram buscar moradia em regiões precárias e afastadas dos
bairros centrais das cidades. Uma grande reforma urbana no Rio de
Janeiro, em 1904, expulsou as populações pobres para os morros
Gilberto Maringoni - de São Paulo
A
campanha abolicionista, em fins do século XIX, mobilizou vastos setores
da sociedade brasileira. No entanto, passado o 13 de maio de 1888, os
negros foram abandonados à própria sorte, sem a realização de reformas
que os integrassem socialmente. Por trás disso, havia um projeto de
modernização conservadora que não tocou no regime do latifúndio e
exacerbou o racismo como forma de discriminação
A campanha que culminou com a
abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, foi a primeira
manifestação coletiva a mobilizar pessoas e a encontrar adeptos em todas
as camadas sociais brasileiras. No entanto, após a assinatura da Lei
Áurea, não houve uma orientação destinada a integrar os negros às novas
regras de uma sociedade baseada no trabalho assalariado.
Esta é uma história de tragédias, descaso, preconceitos, injustiças e dor. Uma chaga que o Brasil carrega até os dias de hoje.
Uma
das percepções mais agudas sobre a questão foi feita em 1964 pelo
sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995). Em um livro clássico, chamado
A integração do negro na sociedade de classes, ele foi ao centro do problema:
“A
desagregação do regime escravocrata e senhorial se operou, no Brasil,
sem que se cercasse a destituição dos antigos agentes de trabalho
escravo de assistência e garantias que os protegessem na transição para o
sistema de trabalho livre. Os senhores foram eximidos da
responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o
Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos
especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de
organização da vida e do trabalho. (...) Essas facetas da situação (...)
imprimiram à Abolição o caráter de uma espoliação extrema e cruel”.
As razões desse descaso ligam-se diretamente à maneira como foi realizada a libertação.
Várias
causas podem ser arroladas como decisivas para a Abolição, algumas
episódicas e outras definidoras. É possível concentrar todas numa
ideia-mestra: o que inviabilizou o escravismo brasileiro foi o avanço do
capitalismo no País. Longe de ser um simplismo mecânico, a frase
expressa uma série de contradições que tornaram o trabalho servil não
apenas anacrônico e antieconômico, mas sobretudo ineficiente para o
desenvolvimento do País. Com isso, sua legitimidade passou a ser
paulatinamente questionada.
ACELERADA TRANSFORMAÇÃO
O Brasil das últimas três décadas do século XIX era uma sociedade em
acelerada transformação. A atividade cafeeira vinha ganhando o centro da
cena desde pelo menos 1840. O setor exportador torna-se o polo dinâmico
da economia, constituindo-se no principal elo do País com o mercado
mundial. Havia outras atividades de monta ligadas à exportação, como a
borracha e a cana. Mas, a essa altura, a supremacia do café era
incontestável.
A partir de 1870, com o fim da Guerra do Paraguai
(1864-1870), a agricultura de exportação vive uma prosperidade
acentuada. Um expressivo fluxo de capitais, notadamente inglês, foi
atraído para as áreas de infraestrutura de transportes – ferrovias,
companhias de bonde e construção de estradas – e atividades ligadas à
exportação, como bancos, armazéns e beneficiamento, todos garantidos
pelo Estado.
O período marca a supremacia incontestável do
império britânico. A expansão da economia internacional e a demanda
crescente por matérias primas por parte dos países que viviam a Segunda
Revolução Industrial resulta em um ciclo de investimentos nos países
periféricos. O historiador inglês Eric Hobsbawm assinala o seguinte em
seu livro A Era dos Impérios:
“O investimento
estrangeiro na América Latina atingiu níveis assombrosos nos anos 1880,
quando a extensão da rede ferroviária argentina foi quintuplicada, e
tanto a Argentina como o Brasil atraíram até 200 mil imigrantes por
ano”.
A CAMPANHA ABOLICIONISTA Embora
rebeliões, fugas e a organização de quilombos já existissem no Brasil
desde o século XVI e várias rebeliões regionais já tivessem a
emancipação dos cativos em pauta, uma campanha organizada só acontece
nas últimas décadas do século XIX.
A questão entra na agenda
institucional a partir do final de agosto de 1880, quando é fundada a
Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Começavam, no Parlamento, os
debates sobre o projeto de libertação geral, apresentado pelo deputado
pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910).
Uma intensa pressão
popular resulta na libertação dos negros no Ceará, em 1884. Uma aguda
crise na lavoura e reflexos da seca de 1877, além da ação de grupos
urbanos, inviabilizaram o regime de cativeiro na região. Incentivado por
esse desenlace, o abolicionismo toma ares de movimento em diversas
províncias, como Rio Grande do Sul, Amazonas, Goiás, Pará, Rio Grande do
Norte, Piauí e Paraná.
A essa altura, a
libertação total dos escravos já era uma possibilidade real. A perda de
legitimidade da escravidão acentuava-se especialmente nas grandes
cidades. A reação vinha de setores da oligarquia cafeeira, temerosos de
um solavanco nos negócios com a previsão de perda de seu “capital
humano” da noite para o dia. Como as evasões tornavam- -se frequentes,
aumentou a repressão contra escravos fugidos em vários municípios da
província do Rio de Janeiro.
ESCRAVIDÃO E MODERNIDADE
A escravidão concentrava-se nas partes mais modernas da economia e
tornara-se menos relevante nos setores atrasados ou decadentes. Em 1887,
o Ministério da Agricultura, em seu relatório anual, contabilizava a
existência de 723.419 escravos no País. Desse total, a Região Sudeste
(São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo), produtora de
café, abarcava uma população cativa de 482.571 pessoas. Todas as demais
regiões respondiam por um número total de 240.848.
Ao mesmo
tempo, o País passara a incentivar, desde 1870, a entrada de
trabalhadores imigrantes – principalmente europeus – para as lavouras do
Sudeste. É um período em que convivem, lado a lado, escravos e
assalariados. Os números da entrada de estrangeiros são eloquentes.
Segundo o IBGE, entre 1871 e 1880, chegam ao Brasil 219 mil imigrantes.
Na década seguinte, o número salta para 525 mil. E, no último decênio do
século XIX, após a Abolição, o total soma 1,13 milhão.
A
implantação de uma dinâmica capitalista – materializada nos negócios
ligados à exportação de café, como casas bancárias, estradas de ferro,
bolsa de valores etc. – vai se irradiando pela base produtiva. Isso faz
com que parte da oligarquia agrária se transforme numa florescente
burguesia, estabelecendo novas relações sociais e mudando desde as
características do mercado de trabalho até o funcionamento do Estado.
Para
essa economia, o negro cativo era uma peça obsoleta. Além de seu preço
ter aumentado após o fim do tráfico, em 1850, o trabalho forçado
mostrava-se mais caro que o assalariado. Caio Prado Jr. (1907-1990), em
seu livro História econômica do Brasil, joga luz sobre a questão:
“O
escravo corresponde a um capital fixo cujo ciclo tem a duração da vida
de um indivíduo; assim sendo, (...) forma um adiantamento a longo prazo
do sobretrabalho eventual a ser produzido. O assalariado, pelo
contrário, fornece este sobretrabalho sem adiantamento ou risco algum.
Nestas condições, o capitalismo é incompatível com a escravidão”.
O economista João Manuel Cardoso de Mello escreve em seu O capitalismo tardio que:
“O
trabalho assalariado se tornara dominante e o abolicionismo, a
princípio um movimento social amparado apenas nas camadas médias urbanas
e que fora ganhando para si a adesão das classes proprietárias dos
Estados não-cafeeiros, na medida em que o café passara a drenar para si
escravos de outras regiões, recebera, agora, o respaldo do núcleo
dominante da economia cafeeira. Abolicionismo e Imigrantismo tornaram-se
uma só e mesma coisa”.
CARA E OBSOLETA
Esta condição – da escravidão ser uma relação de trabalho obsoleta –
acentuou a necessidade de sua superação, tanto no plano econômico quanto
no social e político.
A Abolição não era apenas uma demanda por
maior justiça social, mas uma necessidade premente da inserção do Brasil
na economia mundial, que já abandonara em favor do trabalho
assalariado, mais barato e eficiente.
Um artigo publicado no semanário abolicionista Revista Illustrada, em 30 de abril de 1887, argumenta que a economia brasileira àquela altura já não dependia majoritariamente do trabalho servil:
“Pelos
dados do Ministério da Agricultura, calcula-se que a cifra dos
escravizados não chegue a 500 mil. Tirem-se as mulheres (50%), tirem-se
os escravos das cidades, que nada produzem, e ver-se-á que o que fica
para auxiliar a produção nacional é uma cifra tão irrisória, que
podemos, com orgulho, afirmar, que a produção do nosso país já é devida
aos livres”.
Os números não são exatamente iguais aos do
Relatório do Ministério da Agricultura, já mencionado. Mas o comentário é
digno de nota.
O fim do regime de cativeiro em São Paulo, em
fevereiro de 1888, por exemplo, é ilustrativo. Às rebeliões de escravos
ao longo da década de 1880 vieram se somar o formidável fluxo de
mão-de-obra imigrante que chegava para a lavoura e para a incipiente
indústria, inaugurando o regime de trabalho livre. A província já
iniciara uma arrancada econômica – com a construção de ferrovias,
instalação de casas bancárias e aumento das exportações – que a
colocaria, na segunda década do século XX, na dianteira do
desenvolvimento nacional. A libertação não representou nenhum abalo de
monta para a economia regional.
A situação era diversa na
província do Rio de Janeiro. A região enfrentava uma crise, com vários
produtores rurais endividados em bancos. A libertação poderia
representar um sério abalo. Com isso, os fazendeiros fluminenses ficaram
contra a libertação.
LIMITES DO ABOLICIONISMO
Apesar da ênfase abolicionista de setores das camadas médias e mesmo das
elites em alguns centros urbanos, a pregação libertária tinha limites.
Eles tornam-se perceptíveis quando examinamos que tipo de campanha os
ideólogos da elite pretendiam realizar. Vale a pena conhecer as ideias
do mais importante intelectual da emancipação, Joaquim Nabuco. Como
deputado, ele liderou a jornada no parlamento.
Um trecho de sua obra mais importante, O abolicionismo, escrita em 1882, é esclarecedor. Nesta, Nabuco alega ter um “mandato da raça negra” (embora escravos não votassem):
“O
mandato abolicionista é uma dupla delegação, inconsciente da parte dos
que a fazem, (...), interpretada pelos que a aceitam como um mandato a
que não se pode renunciar. Nesse sentido, deve-se dizer que o
abolicionista é o advogado de duas classes sociais que de outra forma
não teriam meios de reivindicar seus direitos, nem consciência deles.
Essas classes são: os escravos e os ingênuos. Os motivos pelos quais
essa procuração tácita impõem-nos uma obrigação irrenunciável não são
puramente - para muitos não são mesmo principalmente - motivos de
humanidade, compaixão e defesa generosa do fraco e do oprimido”.
Rico,
filho do senador José Tomás Nabuco de Araújo (1813-1878), o parlamentar
é membro de uma importante família pernambucana que teve entre seus
membros altos funcionários do Império. Sigamos suas concepções:
“A
propaganda abolicionista (...) não se dirige aos escravos. Seria uma
covardia, inepta e criminosa e, além disso, um suicídio político para o
partido abolicionista, incitar à insurreição, ou ao crime, homens sem
defesa e que a lei da Lynch, ou a justiça pública, imediatamente,
haveria de esmagar”.
Por que Nabuco pensa assim? Acompanhemos:
“A
escravidão não há de ser suprimida no Brasil por uma guerra servil,
muito menos por insurreições ou atentados locais. (...) A emancipação há
de ser feita entre nós por uma lei que tenha os requisitos, externos e
internos, de todas as outras. É, assim, no Parlamento, e não em fazendas
ou quilombos do interior, nem nas ruas e nas praças das cidades que se
há de ganhar ou perder a causa da liberdade”.
Sintetizemos:
para Nabuco, o negro não tem consciência nem voz. Precisa de alguém para
defendê-lo. É natural que quem o faça seja um branco, culto e
influente. Mesmo assim, o negro não pode participar das mobilizações que
visem mudar sua sina, sob pena de termos um cenário imprevisível.
Mesmo
José do Patrocínio (1853-1905), tido como um abolicionista radical, não
apresenta visão muito distinta. Pregava, no entanto, a necessidade de a
campanha ganhar as ruas. O chamado Tigre da Abolição falava em “revolução”. Mas apontava ressalvas, dizendo ser necessária uma “aliança do soberano com o povo”:
“É uma revolução de cima para baixo. O povo não teria força por si só para realizar a abolição da escravidão”.
LEGALIDADE MONÁRQUICA As pregações de Nabuco e de Patrocínio envolviam duas vertentes principais.
A
primeira é que o abolicionismo deveria ser conduzido nos estreitos
limites da legalidade monárquica e escravocrata, no Parlamento e, no
máximo, em salões e saraus. Deveria ser fruto de uma solução negociada
entre o Estado e os fazendeiros, no espaço institucional e não no espaço
social e público, sem risco de perda de controle.
A segunda é
que os negros seriam sujeitos passivos nesse conflito. A essência da
campanha abolicionista da chamada elite branca era clara: a emancipação
deveria libertar os cativos sem tocar na ordem econômica vigente,
centrada no latifúndio. Para isso, havia ao receio de que o movimento
ganhasse as ruas, envolvendo seus principais interessados, os negros, e
tivesse contornos de desobediência civil.
Em seu livro Onda negra, medo branco, Celia Maria Marinho de Azevedo chama a atenção para algumas decorrências dessa situação:
“Tudo
se passa, enfim, como se os abolicionistas tivessem dado o impulso
inicial e dirigido os escravos nestas rebeliões e fugas (...).Quanto aos
escravos, tem-se a impressão de que são vítimas passivas, subitamente
acordadas e tiradas do isolamento das fazendas pelos abolicionistas; ou
então (...) a ideia que se passa é a de que o negro, apesar de toda a
sua rebeldia, estava impossibilitado de conferir um sentido político às
suas ações”.
Foi com esse caldo de cultura que se preparou a
Abolição como uma intervenção restrita à libertação, sem medidas
complementares, como reforma agrária, ampliação do mercado de trabalho,
acesso à educação, saúde etc.
O que estava em jogo para a elite
branca não era principalmente uma reforma social, mas a liberação das
forças produtivas dos custos de manutenção de um grande contingente de
força de trabalho confinada. A escravidão, no final do século XIX,
tornara-se um obstáculo ao desenvolvimento econômico.
Foto: Acervo Gilberto Maringoni
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O negro e o membro da elite. O primeiro, descalço, tira o chapéu, em
respeito. O segundo parece alheio a quem está ao seu lado. A legenda da
foto em Fon Fon nº 6, 18 de maio 1907 é: “Príncipe Dom Luiz [de Orleans e
Bragança (1878-1921)] com o banhista Sant’Anna que o ensinou a nadar na
praia do Flamengo”. A Abolição manteve libertos em posição subalterna
na sociedade
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A LIBERTAÇÃO Em maio de 1888 veio a Lei Áurea e, 16 meses depois, como consequência direta das contradições que vivia o País, a República.
Com
a abundância de mão de obra imigrante, os ex-cativos acabaram por se
constituir em um imenso exército industrial de reserva, descartável e
sem força política alguma na jovem República.
Os fazendeiros – em
especial os cafeicultores – ganharam uma compensação: a importação de
força de trabalho europeia, de baixíssimo custo, bancada pelo poder
público. Parte da arrecadação fiscal de todo o País foi desviada para o
financiamento da imigração, destinada especialmente ao Sul e Sudeste. O
subsídio estatal direcionado ao setor mais dinâmico da economia acentuou
desequilíbrios regionais que se tornaram crônicos pelas décadas
seguintes. Esta foi a reforma complementar ao fim do cativeiro que se
viabilizou. Quanto aos negros, estes ficaram jogados à própria sorte.
A esse respeito, Celia Maria Marinho de Azevedo lembra que:
“A
força de atração destas propostas imigrantistas foi tão grande que, em
fins do século, a antiga preocupação com o destino dos ex-escravos e
pobres livres foi praticamente sobrepujada pelo grande debate em torno
do imigrante ideal ou do tipo racial mais adequado para purificar a
‘raça brasílica’ e engendrar por fim a identidade nacional”.
AS TEORIAS DO BRANQUEAMENTO
A libertação trouxe ao centro da cena, além do projeto de modernização
conservadora para a economia, o delineamento social que a elite desejava
para o País. Voltemos a Joaquim Nabuco, em O abolicionismo:
“O
principal efeito da escravidão sobre a nossa população foi
africanizá-la, saturá- -la de sangue preto. (...) Chamada para a
escravidão, a raça negra, só pelo fato de viver e propagar-se, foi se
tornando um elemento cada vez mais considerável na população”.
Nabuco
não pregava no deserto. O mais importante defensor da imigração como
fator constitutivo de uma “raça brasileira” foi Silvio Romero
(1851-1914). Republicano e antiescravocrata, ele notabilizou-se como
crítico e historiador literário. Romero preocupa-se em relacionar
fatores físicos e populacionais do País ao desenvolvimento da cultura.
Segundo ele, no Brasil, desde o período colonial, se formou uma
mestiçagem original. Este seria um fator decisivo para a superação de
nosso atraso, através da futura constituição de uma “raça” brasileira,
com supremacia branca. Daí a necessidade da imigração europeia. Vamos às
suas palavras, em 1885, na introdução do livro Contos populares do
Brasil (1885):
“Das três raças que constituíram a atual
população brasileira a que um rastro mais profundo deixou foi por certo a
branca segue-se a negra e depois a indígena. À medida, porém, que a
ação direta das duas últimas tende a diminuir, com o internamento do
selvagem e a extinção do tráfico de negros, a influência europeia tende a
crescer com a imigração e pela natural tendência de prevalecer o mais
forte e o mais hábil. O mestiço é a condição dessa vitória do branco,
fortificando-lhe o sangue para habilitá-lo aos rigores do clima”.
Essas
opiniões evidenciam o pensamento dos abolicionistas sobre a composição
étnica pretendida para o País. Membros das camadas médias e altas
urbanas, cultos, cosmopolitas, alguns ligados diretamente à oligarquia
rural – caso de Nabuco – e em sua maioria defensores do “progresso” (os
positivistas) ou do “desenvolvimento” (os liberais), a eles interessava
sobretudo a modernização do país, a equiparação de hábitos de consumo
aos correspondentes das camadas mais altas dos países ricos e a
integração do Brasil, tanto econômica, como política e ideologicamente,
aos parâmetros do liberalismo.
Não havia contradição, em fins do
século XIX, em alguém se apresentar como um acendrado abolicionista e,
ao mesmo tempo, manifestar um racismo ou um elitismo acentuado. Não há
vínculo entre ambas as coisas, assim como não havia compromisso algum
entre a grande maioria dos abolicionistas e os negros cativos. O mais
importante era não tocar na ordem institucional, que tinha como pilar
central a grande propriedade da terra.
RAÍZES DO RACISMO
O preconceito racial abolicionista tinha raízes dentro e fora do País. A
propalada superioridade da raça branca era parte constitutiva da ideia
de “progresso”, lembra o historiador Eric Hobsbawm.
No século
XIX, os maiores países europeus passam a ser, com hierarquias variadas,
centros de poder imperial, conquistando colônias na África e na Ásia.
Havia um nó teórico a ser desatado: como regimes liberais, lastreados
nas ideias da Revolução Francesa (1789), poderiam colonizar nações
inteiras, subjugando povos e culturas a seus desígnios?
É nesse
ponto que surgem as primeiras teorias racialistas para justificar a
superioridade intelectual, física e moral do europeu branco. O primeiro
grande formulador foi o conde francês Joseph-Arthur Gobineau
(1816–1882).
Diplomata, poeta, romancista e escultor, Gobineau tornou-se conhecido após a publicação de seu Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas (1855). Se os outros povos eram inferiores, como poderiam ter os mesmos direitos dos europeus?
A
noção de superioridade racial passara a ser legitimadora da ordem
imperial, na qual o fornecimento ininterrupto e a bom preço de matérias
primas era o combustível para o funcionamento da economia internacional.
As teorias raciais surgiram para legitimar uma concepção de mundo que
pregava liberdade, igualdade e fraternidade entre brancos e que
justificava a superexploração de outras etnias.
E a ideologia do
racismo passou a existir dentro de cada país, mesmo nos da periferia do
sistema, como explicação determinista para a dominação de classe, o
desnível social e a europeização acrítica de suas camadas dominantes.
INDESEJADOS DOS NOVOS TEMPOS
Os ex-escravos, além de serem discriminados pela cor, somaram- -se à
população pobre e formaram os indesejados dos novos tempos, os
deserdados da República. O aumento do número de desocupados,
trabalhadores temporários, lumpens, mendigos e crianças abandonadas nas
ruas redunda também em aumento da violência, que pode ser verificada
pelo maior espaço dedicado ao tema nas páginas dos jornais.
Escrevendo sobre esse período, Lima Barreto (1881-1922) ressalta que:
“Nunca houve anos no Brasil em que os pretos (...) fossem mais postos à margem”.
A
descrição do historiador Luiz Edmundo (1878-1961), em seu livro O Rio
de Janeiro do meu tempo, sobre morro de Santo Antônio e suas moradias e
vielas miseráveis, poucos anos depois, mostra um pouco da cartografia
humana da então capital:
Foto: Acervo Gilberto Maringoni
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Joaquim Nabuco, o principal teórico do movimento abolicionista (Renascença nº 4, junho de 1904)
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“Por
elas vivem mendigos, os autênticos, quando não se vão instalar pelas
hospedarias da rua da Misericórdia, capoeiras, malandros, vagabundos de
toda sorte: mulheres sem arrimo de parentes, velhos que já não podem
mais trabalhar, crianças, enjeitados em meio a gente válida, porém o que
é pior, sem ajuda de trabalho, verdadeiros desprezados da sorte,
esquecidos de Deus...(...) No morro, os sem- -trabalho surgem a cada
canto”.
O novo regime, apesar das promessas, não viera para
democratizar a sociedade ou possibilitar uma maior mobilidade social.
Por suas características acentuadamente oligárquicas, a República
brasileira chegara para manter intocada uma estrutura elitista e
excludente.
Por conta disso, as autoridades logo voltam-se para a
repressão a diversas manifestações populares. A partir de 1890, são
impiedosamente perseguidos os capoeiras, valentões, predominantemente
negros e pobres, que praticavam essa modalidade de luta pelas ruas do
Rio de Janeiro.
LARGADOS À PRÓPRIA SORTE Em que
pesem alguns episódios específicos, a base fundamental da campanha
abolicionista movida por setores da elite econômica dos anos 1880 estava
longe de ser um humanitarismo solidário aos negros, ou a busca de
reformas sociais democratizantes. Isso tornou-se evidente com o passar
dos anos, apesar de um discurso contraditório de setores das classes
dominantes, simpáticos à libertação. Havia, por exemplo, o caso do
projeto abolicionista de Joaquim Nabuco. Rejeitado pela Câmara dos
Deputados, em fins de 1880, o texto manifestava alguma preocupação
social. Seu artigo 49 definia:
“Serão estabelecidas nas
cidades e vilas aulas primárias para os escravos. Os senhores de
fazendas e engenhos são obrigados a mandar ensinar a ler, escrever, e os
princípios de moralidade aos escravos”.
E havia mais. O historiador Robert Conrad assinala que:
“Os
abolicionistas radicais, como Nabuco, André Rebouças, José do
Patrocínio, Antonio Bento, Rui Barbosa, Senador Dantas e outros
esperavam que a extensão da educação a todas as classes, a participação
política em massa e uma ampliação de oportunidades econômicas para
milhões de negros e mulatos e outros setores menos privilegiados da
sociedade brasileira viessem a permitir que estes grupos assumissem um
lugar de igualdade numa nação mais homogênea e próspera”.
O
mesmo pesquisador assinala ainda o fato de que “durante os anos
abolicionistas, a reforma agrária foi proposta frequente e
urgentemente”. E lembra do plano de André Rebouças, no qual grandes
proprietários venderiam ou alugariam lotes de terras a libertos,
imigrantes e lavradores. Trata-se de uma modalidade de reforma que
prescinde da democratização fundiária, restringindo-se às regras do
mercado então vigentes.
Quando a campanha abolicionista tomou vulto, tais propostas foram pouco a pouco sendo deixadas de lado.
Quais as razões disso? Voltemos a Florestan Fernandes. Talvez a resposta esteja sintetizada neste trecho de seu livro já citado:
“A
preocupação pelo destino do escravo se mantivera em foco enquanto se
ligou a ele o futuro da lavoura. Ela aparece nos vários projetos que
visaram regular, legalmente, a transição do trabalho escravo para o
trabalho livre, desde 1823 até a assinatura da Lei Áurea. (...) Com a
Abolição pura e simples, porém, a atenção dos senhores se volta
especialmente para seus próprios interesses. (...) A posição do negro no
sistema de trabalho e sua integração à ordem social deixam de ser
matéria política. Era fatal que isso sucedesse”.
A história que se seguiu confirmou essas palavras.